sexta-feira, 8 de abril de 2011

A GLOBALIZAÇÃO DOS TIROTEIOS EM ESCOLAS (SCHOOL SHOOTINGS)

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Acabo de chegar em casa e estou perplexa com o massacre de Realengo. Ligo o computador abro a caixa de e-mail e tem uma mensagem de uma leitora que já se tornou uma grande amiga

“... E essa tragédia na escola, que tristeza!... Fico a pensar, será por que a escola ultimamente, em todo mundo, está se tornando palco de tanta violência?...” Eliete.

e um comentário feito pelo leitor e colega Clayton.

"Cara colega Graça, você que está ai mais próxima, tem alguma informação sobre essa tragédia que ocorreu numa escola municipal ai do Rio??? Será que estamos copiando os EUA até no tipo de homicídio, já não bastasse o fracasso das medidas econômicas..." Clayton Coelho. BH-MG.

Havia resolvido não escrever sobre esse assunto, pois já está comprovado que o destaque dado à este tipo de evento têm como efeito a sua multiplicação. Entretanto as colocações da Eliete e do Clayton são pertinentes e reconsidero a minha posição, serei breve sobre o episódio de Realengo, mas quero dividir com vocês a minha reflexão  a  respeito  deste  fenômeno.

Ao chegar na escola em que trabalho tomei conhecimento desse horror. Na secretaria haviam pessoas preocupadas, pois tinham conhecidos e parentes nesta escola. Sigo para a sala dos professores e aTV estava exibindo a retirada das vítimas e dos feridos. Tudo o que sei é o que está na mídia. O blog Dignidade (acesse na minha lista de blogs) fez uma matéria completa, exibindo inclusive a carta deixada pelo atirador.

O school shootings (tiroteios em escolas) até então, um fenômeno típico da sociedade norte-americana,  infelizmente está se tornando global. Esse é o preço que estamos pagando pelo exacerbado individualismo que rege a nossa sociedade.

A globalização do school shootings é uma triste realidade do século XXI:  Alemanha (2009) 10 mortos; Finlândia (2007) 8 mortos; Alemanha (2006) 11 mortos; Canadá  (2006) 1 morto e 19 feridos; Alemanha (2002) 1 policial, 2 alunos, 13 professores mortos e Japão (2001)  8 mortos.

O ato de atirar e matar atualmente, é a brincadeira preferida das crianças e dos adolescentes popularizado pelos vídeos games. Os adultos na sua irresponsabilidade não se dão conta que estão dando aos seus filhos um simulador, pois esses jogos são idênticos aos simuladores utilizados para o treinamento de pilotos civis e militares. Nossas crianças, já postei um artigo falando sobre isso, estão sendo treinadas para atirar e matar com eficiência e se tornarem indiferentes à morte do outro.


Criadas sem limites, sem padrões éticos,  mimadas e condicionadas pelo consumismo, não aprendem a lidar com as frustrações e são induzidas, diante da crise de autoridade e do abandono, a resolver todos os problemas por conta própria na base da violência. É o retorno triunfal do olho por olho dente por dente.

Para nós professores essa agressividade sem controle, não é novidade,  teoricamente a destruição do outro não causa mais repugnância, matar é um ato banal. Fazer justiça com as próprias mãos é uma coisa natural aos olhos de uma geração que presencia a violência e a impunidade no seu cotidiano. É o mundo dos mais fortes, uma realidade darwinista, na qual o mais violento, o mais bonito, o mais famoso e o mais rico estão acima do bem e do mal.

Os fracassados encontram na violência um jeito de serem fortes e na destruição um atalho para a fama. Isso é o que a todo o momento os seriados da TV à cabo estão mostrando. Vivemos a apologia do serial killer, nos CSI Miami, New York e Las Vegas; no Criminal Minds e no absurdo Dexter, no qual o protagonista é um serial killer. No cinema, o Dr. Hannibal Lecter interpretado por John Anthony Hopkins, é uma celebridade reverenciada pelo FBI, sem os seus conselhos os mocinhos não teriam êxito.

A apologia da morte, do sangue e da violência segue condicionando a juventude na transformação dos vampiros em heróis, na exaltação do bullying nos filmes dirigidos aos adolescentes é o mundo do anti-herói, da vitória e da fama e do egocentrismo sem ética e sem sentimentos, no qual o outro é visto como um obstáculo, que se for necessário deve ser removido.

Vivemos em um tempo em que todos abandonaram as crianças e os jovens, todos esses episódios se tivessem ocorridos há 30 anos atrás, os adultos teriam se preocupado em tornar as escolas mais seguras tomando as seguintes medidas: colocando detector de metais na entrada das escolas e das salas; colocando uma equipe de psicólogos para fazer um trabalho preventivo em relação ao bullying (o motivo mais alegado nas cartas deixadas pelos atiradores); funcionários suficientes para monitorar as áreas de recreação; salas com poucos alunos permitindo que os professores tivessem condições de prestar atenção a tudo que está acontecendo; responsabilização dos infratores sem esquecer a responsabilidade das famílias  que estariam empenhadas ensinando aos seus respeitar o próximo e valorizar a vida.

A nossa sociedade não valoriza a criança, para a maioria dos pais é um acessório para compor o retrato da família feliz, passa o dia em creches, em cursos ou com as empregadas, no lugar do afeto, bens materiais e falta de limites; outros são acidentes de percurso, vivem ao Deus dará e são recursos valiosos para a aquisição de verbas de planos assistenciais.

Pobres ou ricas são o alvo preferencial da indústria de consumo. Nenhuma menina brinca mais de ser a mãe da sua boneca, desenvolvendo a ternura e o carinho, a brincadeira agora é um intensivo curso de consumo e erotismo patrocinado pela Barbie, que é uma mulher adulta e fútil imposta como modelo a ser imitado e seguido. Na TV, Bob Esponja incentiva o consumo do fast food e condiciona os menos favorecidos a sonharem com um emprego fritando hambúrguer.

As crianças são bombardeadas diariamente pelo sinistro mantra: Comprem! Comam! Sejam magros e belos! Sejam famosos! Seja ricos! Ou seja, consumam e se consumam nos dando lucros!

O que se pode esperar dessas crianças em matéria de educação, quando Malhação e Rebeldes fornecem os modelos comportamentais a serem adotados nas escolas? Quando a mídia e os tecnólogos insistem que a educação é mercadoria e escola é fábrica? Quando notas e diplomas podem ser comprados ou dados pela aprovação automática? 

Diante desse abandono não há como se esperar que essas crianças se tornem pessoas equilibradas, pois nós adultos com a nossa omissão as estamos mutilando e transformando-as em máquinas de destruição.

Desculpem-me, mas a curto prazo não sou otimista, seguiremos o caminho que vem sendo trilhado desde o Massacre de Columbine: a mídia vai tirar o máximo de lucro desta tragédia que se abateu sobre o Rio de Janeiro, discursos e análises serão feitas por especialistas, projetos de segurança serão esboçados, leis serão propostas, mas aos poucos tudo será esquecido, pois isso vem se repetindo no mundo há praticamente uma década e passada a comoção as medidas preventivas são ignoradas.

Enquanto as crianças continuarem a serem órfãs de pais vivos; condicionadas a viver para consumir, ter prazer e conquistar a fama, seja de que jeito for; sem limites, sem responsabilidades e afeição, estaremos construindo novas tragédias.


Recomendo a todos que queiram saber mais sobre o fenômeno   school shootings clique aqui.
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5 comentários:

  1. Parabéns por mais um texto excepcional.Luto na alma,medo,insegurança,tristeza...São muitos sentimentos que se misturam e impossíveis de se traduzir.Momento, mais do que nunca para cada um de nós Educadores,fazermos uma profunda reflexão.Dialogar com os alunos,sem sensacionalismos,mesmo como gota no oceano, pregar a cada momento a PAZ!!! Que Deus proteja a todos nós e dê forças para as vítimas de agora, e nos ilumine!!!
    Ivone-MG

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  2. Gostei muito da sua reflexão sobre o tema. Pareceu-me bastante sensata, elucidativa e realista.
    É uma pena que uma brutalidade dessas tenha o poder de nos deixar estupefados, e nada mais.
    E o objetivo dos assassinos-suicidas continua sendo alcançado: a notoriedade à custa de um banho de sangue.

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  3. quis dizer estupefato

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Caro Anônimo

    Obrigada pela visita e por seu comentário. Você tocou na raiz da questão: a estupefação. É justamente por contar com essa reação que o terrorismo é tão eficiente.
    A paralisação de toda uma sociedade pelo medo é objetivo e a meta da ação terrorista, entretanto temos que reagir a esse sentimento, pois caso contrário nos tornamos reféns desse tipo de ação, e criamos mais condições para que esse fenômeno se intensifique.

    Entretanto essa tática da manipulação pelo medo, não é utilizada exclusivamente por terroristas.

    No plano econômico, a Escola de Chicago é responsável pela utilização deste estratagema, adaptado à economia por Milton Friedman e batizado com o sugestivo nome de "doutrina do choque". Resumindo de grosso modo, significa criar ou se aproveitar de uma situação em que a população esta em estado de estupefação para aplicar programas e pacotes, que em situações normais não seriam tolerados. Caso queira saber mais sobre o assunto eu recomendo a você a leitura do livro "A Doutrina do Choque" de autoria de Naomi Klein.

    Aproveite e leia a entrevista dada pela autora neste link, muitos dos absurdos que vemos na atualidade serão esclarecidos.

    A entrevista está no link: http://www.oestrangeiro.net/politica/127-a-doutrina-do-choque-o-tema-do-novo-livro-da-ativista-naomi-klein


    Ótimo fim de semana!

    Grande abraço

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