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quarta-feira, 11 de agosto de 2010

O Brasil de Amanhã

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Brasil caminhava pela areia da praia, tonto e cambaleante (efeito da farra de carnaval). Repentinamente, ele se deparou com um velho, de longas barbas brancas, corpo magro e visivelmente doente, carregando um livro debaixo do braço.
Assustado com a aparência daquele senhor, Brasil perguntou-lhe:
– Quem é você?
– Não está se reconhecendo? – indagou o velho – Eu sou você amanhã.
O jovem Brasil, que já estava mareado pela bebida, ficou mais zonzo ainda:
– Quer dizer que eu serei assim no futuro?
– É claro. A idade chega para todo mundo, mas bem que você poderia ter cuidado melhor da sua aparência e da sua saúde, né? É por causa do seu desleixo que estou assim, doente e desmazelado.
– E onde você mora?
– Num barraquinho aqui perto.
– Barraquinho? Pensei que quando eu ficasse velho, moraria numa mansão igual à da China e dos Estados Unidos.
– Meu caro jovem, você tinha tudo nas mãos para ser rico e próspero. Só precisava se esforçar. Mas como você não quis trabalhar, não conseguiu mais nada na vida e ainda perdeu o que tinha.
– E eu... quer dizer... você mora sozinho?
– Vivo com minha companheira, a Venezuela. Ela está velha, desdentada, mais doente e mais pobre do que eu, mesmo assim eu gosto dela. Vivemos felizes... Quer conhecer meu cafofo? Lá é de pobre, mas é limpinho, viu?
– Outra hora. E que livro é esse debaixo do seu braço?
– Não faço a mínima ideia. Eu não sei ler. Uso esse livro como apoio para minha cabeça quando preciso descansar.
– Como isso é possível? Eu sou letrado. Achei que na minha terceira idade eu seria um homem douto e sábio.
– Eu sabia ler, mas de repente esqueci tudo. Outro dia, eu disse para minha companheira: Hoje sou um abitolado, porque não investi o suficiente na minha própria Educação. A Educação é como um remédio que devemos tomar a vida toda; senão, a doença retorna, e aqui está mais uma doença da qual padeço: o analfabetismo.
Após falar isso, o velho Brasil deitou-se na areia e colocou o livro sob a cabeça. Pediu licença ao rapaz e disse que precisava descansar para caminhar até o barraco.
Minutos depois, o jovem Brasil foi encontrado na mesma praia, dormindo com a cabeça sobre uma garrafa de bebida. Os amigos o chamaram. Ele acordou. Levantou com dificuldade. Gritou:
– Que bom! Era tudo um sonho. Vamo galera! Vamo pra avenida curtir mais um dia de Carnaval.

Este texto é minha contribuição para a blogagem coletiva “Brasil, 14 de novembro”, promovida pelo blog Cachorro Solitário, do Diogo C. Scooby.

Sobre o Autor: Valdeir Almeida é professor de Língua Portuguesa e Orientador Acadêmico de Graduação. Produz os textos do Ponderantes e do Painel do Educador

Fonte:http://www.ponderantes.com.br/2009/11/o-brasil-de-amanha.html

sexta-feira, 30 de julho de 2010

A LEI DA PALMADA

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Nas últimas duas semanas, a questão da criminalização da palmada é destaque na mídia. A Lei da Palmada , como qualquer outra que torne a vida da criança melhor é bem vinda, mas quero mais. Quero uma lei que garanta saúde para as crianças de baixa renda, pois é um crime a aflição dos pais e das mães nas filas dos hospitais públicos à espera de atendimento; quero outra lei que acabe com criminoso desfile de crianças nas intermináveis valas de esgoto a céu aberto que cobre esse imenso Brasil como também mais uma lei para erradicar o criminoso espetáculo que exibe uma multidão de crianças e adolescentes pedindo esmolas nos sinais, se prostituindo e se drogando nas ruas dos grandes centros.

Somos campeões na criação de leis, mas também somos campeões no não cumprimento dessas leis, pois o que adianta criá-las se não temos estrutura para aplicá-las? Infelizmente ainda seguimos a velha máxima nacional da “lei para inglês ver”.

Não sou a favor de castigos físicos, entretanto entendo que devemos educar para a vida em sociedade, a qual exige de todos responsabilidade. Acho a palavra limite inadequada em matéria de educação, pois limite remete a coerção, e se coerção educasse, o mundo já seria um paraíso de ordem e tranquilidade desde a antiguidade, ao contrário da responsabilidade que é uma ação voluntária do individuo guiada pelo seu livre arbítrio.

O que se observa na longa caminhada da humanidade é que a coerção foi e ainda é o recurso fundamental e imbatível para promover a vida em sociedade. A nossa sociedade é extremamente coercitiva, seja no plano legal ou no ilegal. Vivemos um momento em que até os 18 anos, o indivíduo é totalmente protegido por uma bolha artificial e demagógica, pois não o prepara para viver no mundo da coerção que será jogado na maioridade. Particularmente considero irresponsável e criminosa essa prática, pois sob a alegação de não traumatizar o indivíduo o deixa totalmente vulnerável para enfrentar as pedradas da vida adulta, imagino o trauma produzido nesses jovens ao atingir a maturidade, pois a dor e o sofrimento não estão presentes só na infância, trauma não tem idade.

As páginas dos jornais exibem diariamente crimes praticados por indivíduos jovens, que em sua grande maioria foram provocados pela falta de preparo para lidar com as frustrações, respeitar o direito do próximo e cumprir seus deveres. Como podemos exigir de um indivíduo que até os 18 anos viveu em um mundo do vale tudo e depois foi jogado em mundo regulado por deveres e obrigações, um comportamento exemplar? É injusto processar, prender e encarcerar um cidadão criado na total irresponsabilidade, ao qual ninguém pode dizer não, exigir que respeite o direito do próximo, pois até matar é permitido até os 18 anos sem maiores consequências.

Defendo a liberdade com responsabilidade, mas diante da crise ética e moral em que estamos vivendo é quase impossível passar para a crianças e os jovens o dever de respeitar o direito do próximo, pois a legislação e a própria sociedade, a todo o momento banaliza e sanciona o desrespeito e a impunidade.